Arquivo | março, 2014

Sem dó.

28 mar

Eu não vejo problema em julgar os outros. E você, se acha que tá “pecando” pensando besteira da estagiária que se debruça na mesa pra falar com o chefe, relaxa. Isso não é ruim.

O que seria de nós, se não julgássemos uns aos outros?

Andando de trem, naquela situação agradável das cinco e meia da tarde, um homem chega mais perto de mim. Bermuda larga, um metro de cueca à vista, camiseta de time, e óculos verde espelhado daqueles que ficam grudados na cara. 
Daí a Madre diz que não desconfiou. Claro que eu desconfiei. Me afastei um pouco, saí da zona de ataque dele. 
Deu Corinthians-Itaquera, ele desceu. Fez nada comigo, mas eu não tô aqui pra dar oportunidade pra safado.
Será que era mesmo safado? Não sei. Talvez fosse um estuprador, traficante, fugitivo ou um cara qualquer que goste de se vestir assim. Um cara legal, talvez. 
Eu, na condição de pessoa falha e comum, julgo mesmo. Penso bobagem por uma questão de sobrevivência.

É até gostoso ficar imaginando sandices dos outros.

Aquele cara de terno e gravata com uma maleta no colo. Ele pode estar carregando dinamites.
A moça de cabelo alisado e vestido justo, que usa óculos de sol à noite. Deve estar saindo agorinha mesmo do motel depois de um encontro alucinante com o prefeito da cidade. Que é casado, é claro.
A senhorinha de saia até o joelho, coque no topo da cabeça e Bíblia embaixo do braço… e algumas G Magazine embaixo da cama.

Ficar pensando em realidades possíveis pra gente estranha é um dom, não pecado. 

E isso me ensinou a virtude de não confiar em ninguém.
Nunca.

Eu me pego olhando de lado, com a sobrancelha arqueada, esperando o final da história de gente que eu não conheço bem. Pode até ser verdade, mas dificilmente eu acredito. Faço aquela cara de quem tá adorando ouvir, mas por dentro quero morrer. E talvez por ser uma ótima mentirosa, geralmente eu reconheço uma mentira antes mesmo de você chegar no meio dela.

Julgo, desconfio e adoro. Sem dó.

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Papinho Paraíba

26 mar

Adoro ouvir a conversa dos outros. Ainda mais quando acham que eu não tô ouvindo.

Ontem, depois de uma enxaqueca alucinante (devido à minha genialidade em tomar energético de estômago vazio), consegui ouvir o papinho de dois caras, sentados bem atrás de mim.
Não sei mas, eles mantinham um tom de voz diferente. Acho que queriam que eu ouvisse, talvez.
Um de 22, e outro de 23. Falando sobre emprego, carro, mulher, dinheiro… O mais novo fica marcado como Fulano 1 na história, e o mais velho como Fulano 2.

Fulano 1 – Eu quero sair de lá. Não aguento mais meu chefe. Quero fazer Arquitetura, um curso de Fotografia… (meu interesse crescendo em 3, 2, 1…)
Fulano 2 – Rapai, nunca pensei em faculdade, sabia? Só queria sair da escola e ter meu carro, minha moto, minha mulher e pá…
1 – Hum.
2 – É, maninho. Eu vejo as mulher chegando lá no serviço, tudo maquiada, arrumada. Parecendo que vai pra festa. E estudô? Estudô um caraio! Mulher não estuda, basta ser bonitona. Ganha mais que nóis, sabia não? Elas tem dessa, chega pro chefe e ele faz de um tudo.
1 – Não é bem assim.
2 – Pff, né não? É sim! Agora memo tô fazendo birra. Já pedi pro patrão mandá embora, e nada. Falei “ah vai não?”, e num tô indo mais. Falsifiquei atestado. Falsifico memo. Quero pegá logo meus direito e ir pra minha Paraíba.
1 – Chefe é foda.
2 – E num é?!

Não é. Essa conversa foi absurda em tantos pontos que, sinceramente, eu não sei quais pontuar primeiro.
Não sei se preciso pontuar. É tudo muito óbvio.
É tudo MUITO errado.