Dor.

9 fev

Viver durante 18 anos com um grito preso. Esperar por alguém que venha fazer o que você não teve coragem de fazer.

Eu tenho uma grande dificuldade, uma enorme dificuldade em confiar nas pessoas. De algum jeito sei que me farão mal. Sei que não serão verdadeiras, e também sei que nenhuma delas gostará de mim por completo.
Não porque eu não mereça, mas porque eu não deixo que façam isso.

Sei mascarar muito bem essa vontade de querer ser íntima. De querer participar de tudo. Na verdade, eu quero. Eu me sinto bem. Porém, logo uma nuvem negra se aproxima e eu vou lendo a intenção de cada um.
“Aquela ali te chamou porque você trouxe cerveja. Não seja idiota, ela não gosta de você.”
“Aquele cara conversa com você porque é amigo do seu namorado, não se engane, ele te odeia.”

E mesmo que essa bruxinha da discórdia -nome infantil pra um demônio interno- não apareça, eu dou um jeito de achar uma vírgula. De achar aquele ponto exato onde eu tive certeza de que não posso confiar em você.

Daí querem saber a que se deve essa amarra. Essa agonia de viver com dois pés atrás. Eu digo.
Vem de uma infância tão bonita que me amarga a boca contar. Vem de uma idade deliciosa de menina, de menina que é protegida pelas asas dos pais. De uma menina doce, de riso muito fácil, de gargalhada, de primos amorosos e finais de semana na praia.
Essa fase que tinha, em tantos aspectos, a chance de ser mais bonita ainda.

Não tenho coragem de contar abertamente, dar minha cara à tapa como se fosse morrer amanhã.
Talvez eu deixe escrito em algum papel velho, dentro das coisas que só eu mexo. Pois é assim que guardo essa memória tão áspera. Reservo-a dentro de mim em um canto escondido, esperando que NINGUÉM nunca tente alcançar.
Que ninguém tenha a audácia de me fazer lembrar outra vez.

Mas sempre acontece. Uma notícia na tv. Uma frase no jornal. Uma conversa de adulto. Uma conversa entre primas.
E como me dói, meu Deus. Me faz chorar sentindo uma corrente no pescoço, apertada, que estreita cada vez mais. A vontade de desistir é grande, mas não tão grande ainda. Não tão grande a ponto de me fazer estourar.
Grande somente pra me afastar de alguns amigos. Enorme pra me fazer sozinha.

E hoje durmo com essa lembrança revirada, esperando que chova hoje à noite. Aqui dentro vai chover, sempre vai chover.

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